Principais desafios da Reforma do Ensino Médio

Nos últimos meses, muito tem se falado sobre ensino médio e o futuro da educação brasileira,  em consequência da Reforma do Ensino Médio aprovada em fevereiro deste ano.

As mudanças vão gerar reflexos e impactos, mesmo que a longo prazo, nas séries que antecedem o ensino médio e também na graduação, bem como em seus processos seletivos, como o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e os vestibulares tradicionais.

Para fomentar discussões, propostas e reflexões, o Instituto Unibanco organizou o Seminário Internacional Desafios Curriculares do Ensino Médio: flexibilização e implantação, que aconteceu na cidade de São Paulo nos dias 21 e 22 de junho.

Muitos foram os participantes e as informações apresentadas, e o Canal Técnico traz para você alguns pontos relevantes do seminário.­­­­­­­­­­­­­­­­­­­

Principais desafios da Reforma do Ensino Médio

Serão vários os setores e as pessoas envolvidas na Reforma e cada grupo terá desafios distintos.  Órgãos governamentais se preocupam em levar informação e esclarecimentos acerca dos objetivos do novo ensino médio e seus impactos para a comunidade escolar e para a sociedade.

Estudantes tentam entender como serão suas vidas daqui pra frente, levantando importantes questionamentos, como:  qual será a carga horária de estudos? Qual itinerário formativo escolher? E quais serão suas opções, ou sua opção, caso a escola em que estuda possa ofertar apenas uma das cinco alternativas?

Professores e diretores se preocupam com o cotidiano da escola.  Haverá contratação de mais funcionários para atender à nova demanda?  Escolas que não têm cozinha se adaptarão de que forma ao novo modelo proposto?

E em relação à carga horária de trabalho, como o professor se dedicará exclusivamente a uma escola se a realidade brasileira exige que ele atue em três ou quatro instituições diferentes, algumas vezes até incluindo a rede privada?

Estes são alguns exemplos de temáticas que devem ser refletidas e respondidas durante o processo de implantação do novo ensino médio.

Para Eduardo Deschamps, Secretário de Educação de Santa Catarina (SC) e presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), alguns dos principais desafios da Reforma do Ensino Médio são flexibilização, articulação com a educação profissional e introdução da educação em período integral.

Flexibilização: como lidar com isso no Brasil?

Na nova proposta de ensino médio, o aluno terá conteúdos obrigatórios, que serão definidos pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que deve ser apresentada no segundo semestre deste ano e será responsável por 60% da carga horária total de estudos. Quanto à flexibilização, por exemplo, o aluno terá a oportunidade de escolher entre cinco itinerários formativos, como a educação técnica profissional.

Será responsabilidade dos estados a definição dos currículos de cada itinerário, e aí surgem mais dúvidas sobre como isso acontecerá.  Se não houver um padrão a ser seguido, como serão avaliados os resultados desses estudantes? E como mensurar a qualidade do ensino?  Cada estado terá uma avaliação específica para isso?

Jovens que participaram do Seminário afirmaram que a flexibilidade é muito importante para os estudantes. Gabriel Ferreira, do Lyceu de Goiânia (GO), que cursou o ensino médio em período integral, disse que “a inflexibilidade da escola atual atrapalha o aprendizado. As particularidades dos estudantes não são respeitadas. Com os itinerários o aluno poderá optar por algo com que ele tenha mais afinidade”.

Articulação com educação técnica profissional

De acordo com o Censo Escolar de 2016, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), o Brasil possui atualmente 1,9 milhão de matrículas no ensino técnico.

A ampliação da educação técnica profissional está prevista na meta 11 do Plano Nacional de Educação (PNE), que pretende chegar a 5,2 milhões de matrículas até 2024. Uma das formas de alcançar esse objetivo é por meio da implantação de escolas em tempo integral com a opção de itinerário formativo para a educação técnica profissional.

Para a jovem Thaianne de Souza Santos, do Rio de Janeiro, é fundamental que as opções dadas aos estudantes estejam em conformidade com o mercado de trabalho. Para ela, fazer um curso sem ter perspectivas reais de conquista de um emprego desmotiva o jovem e o distancia ainda mais da escola.

Se isso acontece, um dos maiores problemas do ensino médio, a evasão escolar, não é combatido e seus números se mantêm elevados. Somente 65 estudantes, de cada 100 matriculados na educação básica brasileira, concluem o ensino médio, de acordo com dados apresentados por Ricardo Henriques, Superintendente Executivo do Instituto Unibanco.

Nesse ponto chegamos à regionalização. Um curso técnico que seja bom e tenha alta empregabilidade na cidade de São Paulo pode não ter o mesmo efeito em Salvador.

E isso deve ser levado em consideração quando definirem os cursos de educação técnica profissional que serão disponibilizados aos estudantes de cada região do Brasil.

Introdução do ensino integral

Será um grande desafio implantar a educação de ensino médio integral em um país com dimensões continentais e que possui mais de 8 milhões de estudantes matriculados na última fase da educação básica. Mas existem questões estruturais que precisam ser consideradas.

Mais de 50% dos municípios brasileiros possuem apenas uma escola de ensino médio. A situação mais preocupante é no Rio Grande do Norte. De 167 municípios, 135 se encontram nessa situação, e essas escolas são responsáveis por 36% das matrículas do ensino médio de todo o estado.

Para Ricardo Henriques, essa pode ser uma oportunidade para que se estabeleça a colaboratividade entre as cidades. Em um estado como Santa Catarina, ressaltou Deschamps, “essa prática é possível porque os municípios são pequenos e bem próximos”.

Dessa forma, se uma cidade não consegue ofertar determinado itinerário formativo, o aluno poderá ser atendido por outro município próximo. Mas um estado como o Pará, um dos maiores em extensão territorial do país e com diversas particularidades, principalmente em relação à locomoção, onde muitas cidades têm seu acesso possibilitado apenas por barcos, essa não seria uma alternativa viável.

Mesmo com tantos entraves e obstáculos por falta de estrutura física adequada em alguns locais, Verónica Salgado Labra, do Ministério da Educação do Chile, afirmou que o Brasil deve seguir em frente na implantação da Reforma.

Nunca haverá um cenário perfeito. Aguardar por isso é impedir o processo de atualização curricular e permitir que a inércia prevaleça sobre a necessidade de mudança”, disse.

Alguém deve tomar a iniciativa e os desafios devem ser enfrentados e contornados. Cada estado terá sua particularidade em relação a isso e será fundamental a troca de experiências entre todos para que se crie uma rede de colaboração mútua.

Elizabeth Fordham, da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), declarou que “o ensino médio é o último encontro de toda a sociedade com a juventude”. E nessa última etapa da educação básica brasileira, a sociedade e os órgãos governamentais não devem continuar falhando com o jovem.

Para quem busca mais informações e melhor compreensão sobre esse momento da educação no Brasil, é necessária a participação em eventos e audiências públicas para se atualizar e se fazer ouvir sobre o tema.

Mesmo que não faça parte da comunidade escolar diretamente, acompanhar o debate é sempre válido.

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