Como conter a evasão nas escolas brasileiras? Descubra!

“Quem chega no final do ensino médio é mega, power sobrevivente. A gente perde pro tráfico, a gente perde pra gravidez. A gente não consegue manter os meninos na escola.”

Assim desabafa Vanessa Lima, assistente social, no documentário recém-lançado ‘Nunca me sonharam’. Dirigido por Cacau Rhoden, ele trata dos desafios do presente, as expectativas para o futuro e os sonhos das pessoas que vivenciam o ensino médio nas escolas públicas brasileiras.

Problema recorrente na realidade educacional, a evasão escolar é destacada por professores, gestores e especialistas em educação. Bernadete Gatti, pedagoga e doutora em psicologia, reflete sobre o seu impacto: “38% dos jovens não estão no ensino médio e não estão no trabalho. A pergunta é: onde eles estão?”

Por isso, este assunto é uma das grandes preocupações de professores e gestores escolares em todos os níveis de ensino. Ou pelo menos deveria ser. Quando a análise da evasão é feita em relação ao ensino médio a apreensão é maior e as ações para contê-la precisam ser proporcionais aos dados.

Evadir no ensino médio significa que a educação falhou com aquele aluno. Não somente na última etapa da educação básica, mas durante toda a sua vida escolar. O estudante não evade apenas nessa fase do ensino, este é um resultado de um processo constante que vai tirando os jovens brasileiros da escola a cada ano.

Cenário

De acordo com o Censo Escolar de 2016, existem alguns picos nos índices de reprovação do Brasil. No 3º ano do fundamental 1, a taxa é de 11,5%, no 6º ano do fundamental 2 chega a 17,1% e no 1º ano do ensino médio a porcentagem é de 25,4%.

Essas séries têm em comum o fato de constituir um momento de transição, de “virada de chave” para o aluno. E essa pode ser uma resposta para as altas nos índices de reprovação, bem como de abandono em cada uma das etapas da educação básica brasileira.

Publicado este ano, o estudo ‘Cenário da exclusão escolar no Brasil’, realizado pelo Fundo das Nações Unidas pela Infância e Adolescência (Unicef), indica que existem no país 2,8 milhões de jovens fora da escola. Desse total, 57% (1,59 milhão) têm entre 15 e 17 anos.

A mesma pesquisa mostra que a evasão escolar está em grande parte relacionada a situações de vulnerabilidade social e condições socioeconômicas precárias. Boa parte dos potenciais talentos perdidos durante a trajetória escolar, 53%, vive em famílias com renda per capita de até meio salário mínimo. Outros 33% estão em residências com renda per capita de mais de meio até um salário mínimo.

Os dados são ainda mais preocupantes quando ouvimos a manifestação do redator Felipe Lima: “O pobre, o favelado, o negro, eles estão no banco de reserva, cara. E só o que vai te botar no jogo é estudo e leitura”.

As medidas tomadas para conter a evasão escolar devem levar em consideração a situação em que esses estudantes se encontram. É necessário conhecer sua realidade e entender a dificuldade que o afasta da escola para criar ações eficazes que contribuam para a diminuição do abandono escolar.

Quais ações são realizadas para combater a evasão escolar?

O questionário do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (SAEB) para diretores aponta que entre as práticas para combate à evasão escolar estão:

  • Professores conversarem com alunos: acontece frequentemente em 51,5% dos casos;
  • Convocar pais para conversar sobre o assunto individualmente: essa prática é adotada sempre ou quase sempre em 38,4% das escolas;
  • Enviar alguém à casa do aluno: isso nunca acontece em 45,6% das situações.

O SAEB também mostra que para 41% dos gestores escolares as ações são ineficazes. Outros 5% admitem nunca terem feito nada para tentar combater ou diminuir o avanço da evasão nas instituições de ensino.

Em escolas que as práticas mais convencionais de combate à evasão não surtam muito efeito, é fundamental usar a criatividade para chamar a atenção do aluno e mantê-lo estudando.

A criação de parcerias e o incentivo ao empreendedorismo são iniciativas que podem mudar a realidade da escola e provocar nos alunos o desejo de aprender mais. A ETEC Antônio Devisate, em Marília, interior do estado de São Paulo,  é um exemplo disso.

As ações realizadas pela instituição envolvem parcerias com empresas, para que o aluno do curso técnico seja encaminhado ao mercado de trabalho.

Isso aumenta não só a permanência dos estudantes no curso, como também sua procura, porque eles enxergam chances reais de empregabilidade em determinada área de atuação.

Após a contratação, é feito um acompanhamento dos alunos com feedbacks constantes para verificar a adaptação e o desenvolvimento do aluno na empresa.

São realizadas feiras tecnológicas, semanas técnicas e ciclos de palestras no intuito de ajudar os alunos a escolher sua profissão.

Quanto mais se conhece sobre a prática profissional de determinado curso, mais assertiva será a escolha do jovem, o que também ajuda a diminuir os índices de evasão.

Outra prática interessante é o incentivo ao empreendedorismo e à inovação. Cláudia Mara Parolisi, diretora da unidade, afirma que “12% dos alunos das áreas de Gestão e Negócios, Informática e Segurança do Trabalho concluem os cursos e investem em negócios próprios”.

Embora essas atividades sejam realizadas em uma escola técnica, o público é semelhante ao de uma escola de ensino médio regular.

E em tempos de reforma do ensino médio, em que uma das opções de itinerário formativo é a educação técnica profissional, os gestores das instituições de ensino devem ficar atentos a esses tipos de iniciativas.

Indo além, “também existe a possibilidade de parcerias com instituições de ensino superior para que os alunos possam participar de grupos de trabalho ou pesquisa”, conforme declarou Carolina da Costa, do Insper, durante o ‘Seminário Internacional Desafios curriculares do Ensino Médio: flexibilização e implementação, realizado pelo Instituto Unibanco’.

Hoje, isso seria tratado como uma atividade extracurricular, mas com a flexibilização que será permitida pelo novo ensino médio, uma parceria desse tipo poderia ser mais um componente curricular dentro da grade montada pelo próprio estudante.

As possibilidades que se apresentam com a reforma são muitas. Contudo, como bem lembrou o jovem Felipe Vieira de Lima, de Nova Olinda, Ceará, não é apenas a grade que deve ser alterada, mas também “a forma como as aulas acontecem”.

Mesmo que os alunos tenham cinco opções de caminho a seguir durante o ensino médio, poderão continuar desmotivados com a escola se não enxergarem uma renovação real na forma como a educação é realizada nas salas de aula brasileiras.

Ate lá, manter o estudante na escola é um desafio significativo, e que deve exigir esforços e reflexões, pois vale lembrar o que destaca a professora e mestre em educação, Macaé Evaristo, no documentário ‘Nunca me sonharam’, mencionado no começo deste artigo: “mesmo a escola mais chata salva milhares de vidas no nosso país”.

2 comentários para “Como conter a evasão nas escolas brasileiras? Descubra!”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *